Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

VIVER OU MORRER


        ESQUELETOS DISPUTANDO UM ARENQUE FUMADO
                                          James Ensor


          


viver ou morrer?
O que somos ao longo do tempo?
Se suprimido as emoções, os impulsos e os sentimentos
O que seremos, além de pele em cima de ossos
Despencando como a neve dos telhados descongelados, quando tocados pelo sol
Lágrimas no deserto e olhos de areia
O  que somos além dessa dor de ser poeira,
E tentativas de sentir a plenitude por uma vida inteira
Uma ilusória liberdade de estarmos violentamente presos dentro de um
Próprio apodrecimento, o que fazemos mais além
De equivalentes escolhas que nos levarão sempre para o mesmo enterro
Independentemente do sucesso obtido no meio do caminho,
Brindaremos indiscriminadamente sempre juntos o mesmo erro
E o mesmo  Fim
O erro de termos nascidos
Vivos

Pois se mortos fossemos, poderíamos continuar mortos vivendo...
Teríamos nascidos todos mortos por direito
A herança garantida congênita do atávico morrer-se enquanto se nasce, e tu, meu querido vampiro
Não precisarias sugar a vida por uma vida inteira, nem sofrer a maldita beleza de ter que morrer menos só do que és e sempre serás
Pois a dor de estar vivo não te pertencerias mais, a dor de virar pó
E mais do que pó, ter nascido do pó que te consiste 
Ossos de vilanias e vilezas
A morte da vida na Beleza

Em meu ser tão carnal e vivente,
Dor minha tão mortal e latente
De morrer todos os dias um pouco vivo
E um pouco só
Absoluta e completamente só
Assim eu digo, e me pergunto o por que
De não termos nascidos mortos
Para assim,
Mortos podermos morrer em paz

Sempre os mesmos mortos
Vagando pelo mundo,
Respirando a vida de outro ser
Atordoando meus pensamentos
Manchando a alegria do meu viver
Com seus silenciosos ossos rangendo na trevosa escuridão da noite,
Com seus odores pestilentos
Empestando os cintilantes fulgidos coloridos fulvos brilhos escapados das flores
Matam o tempo pois mortos já estão
Matam as dores pois nada sentem
Matam os amores porque mortos não amam
Matam as cores porque pálidos vivem mortuária chama de lividez tamanha
Que nem o mais colorido Mondrian
Seria capaz de desperta-te,
Vil criatura,  
para as cores nascentes da manhã

Mornos mortos
Indiferentes
Inexistentemente
mortos

Deus da vida, aquele que inventaste tal macabra diversão
Se vivo tenho que morrer
Como invejo esses mortos todos
Oscilantes entre o sonho de acordar menos vivos do que antes,
E o pesadelo de voltarem da morte menos mortos e mais distantes,
Com menos tempo de vida
Esses mortos dançantes, estuporantes
Que todos os dias assisto sem poder morrer,
Com medo de encostar, pois admito
Sustentar inconfessável temor
De morrer de uma morte vivida
De ser contaminado pela vida do não viver
E passar morto os restos dos dias que me restam pra viver



Os mortos que dormem e respiram
E não precisam nunca mais falecer
Invejoso de mim
Vivendo num mundo de cadáveres que falam
E andam, e se vestem de rosa, de vermelho, de azul
E ainda brigam por um cigarro de arenque 
Os mortos que não precisam morrer
Já estão enterrados, e exalam podridão!
Como invejo esse mundo quando vivo vejo
Esses corpos que falam sem a morte perceber
Os lábios pálidos,
As frases geladas
Os olhos frios
Lívidos viventes mortos pelo vazio

Oh, como quero gritar e existir mais do que tudo no mundo,
Como quero viver sem ter que morrer
Morte vil e maldita
Perversa nefária condição humana
Como quero ser e ser e somente ser
Como quero arrancar de mim essa dor num berro, num grito, num tiro
Num trovão, numa faca cortante o ar da morte penetrante
Triunfante sobre nós terrenos
Plenos de vida cheia
Que bate e bate
E bate e bate e explode coração

Quando apenas
Somos os escravos aparentes das regras
Diárias e eternas
Enquanto uma vida nos durar
E isso será o que entendemos ser para sempre
Até morrermos de uma morte natural
Que virá como uma tarde calorosa de verão,
Assim, sem avisar, porém, já pressentida
Pois ela, esguia, em sua elegância esvoaçante em fina seda, seu perfume fatal espargirá pelo ar
Anunciada pelo vento e pelos beija-flores....
Enquanto o Sol estará se despedindo no derradeiro dia
Desflorando-se nas fervilhantes cores do horizonte infinito
Nos dando um maravilhoso e educado colorido último adeus...

Pois nascemos assim, todos vivos
Corpos amontoados num canil
Num mundo injusto,  onde os mortos nascem
Mortos e vivem uma vida senil
Matando os vivos com sorrisos cadavéricos
E olhares bombásticos
De um míssil satânico que explodiu


Ai meu Deus
Como queria poder morrer por um dia
E poder me despertar pela manhã, e saber
Que vivi um sonho real
Vivi a morte eterna de uma vida finita
Para nunca mais ter que morrer outra vez

Ai meu Deus
Como pensei ser
Imortal
Ou talvez poder renascer
Todos os dias como o sol
Cada vez que tivesse que morrer
A minha vida , o meu ser ou não ser
 

 FC





Um comentário:

  1. Uma grande explosão de sentimento!!! Intenso, profundo. Bj de Luz🌟🌟🌟⭐️👏👏💋💋💋

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