Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

AMANDA LEPORE



Quieto, responde teu rosto sincero
Um riso tanto pouco áspero e tão
Inquieto que chego a perguntar
O tamanho da resposta que iria
Me dar, ou sequer se havia alguma
Qualquer pensamento que fosse
Visto, traço de um pensar nem
Amargo, nem doce, mas que revela
Um sublime testemunho ocular
Onde inverte-se a pergunta sobre
Quem perscruta quem, sobre quem
Enxerga quem? Quem é olhado
Nesse mundo de todos e de ninguém?

Teus olhos um desfiladeiro, canto
De um pássaro em pleno vôo,
Chamas impávida teus seguidores
Amantes fieis, obcecados, idolatram
Sua diva todo ano sem serem
Requisitados, fazem filas aos teus
Pés.... eles sempre vêm,
Indubitavelmente
Assim como caem as folhas numa
Mudança próxima de estação, sem
Nada precisar dizer, sem nada
Precisar falar, sem um gesto apenas,
Que não seja esse intrigante,
Desconcertante sorriso de mecenas
Algozes se redimem, e vítimas
Crescem aos teus olhos gentis
De uma santa Madalena, quase
Uma mulher só para ser só uma
Mulher, quando em teu sorriso
Zombeteiro, vejo também os
Traços enfermeiros de uma cura
Sem remédios, quando falsos
Teus cabelos suponho poder ser,
quando falsos os teus contornos
exibidos assim ao público indiferente,
ignorante aos traços do real e do
ausente, vejo os implantes nos teus seios,
assim com um olhar cirúrgico, e cru
com lágrimas de um fã que te amarás
independentemente de quem fores
prática e objetivamente, te vejo completa
e verdadeira, explicitamente transformada,
Transformista da risada, em quem tu
Verdadeiramente és... Giocondo mio!


Compreendo enigmático secular
Sorriso performático, cujo real
Sentido, se festivo, lisonjeiro, ou
Não verbal provocação, por tantos
E  tantos anos e anos inacabáveis,
Incontáveis Peritos dello sfumato
Investigado, opinado, divergindo,
Contra-argumentando, e devorado
Pela absoluta verdade sempre mais
verdadeira do que uma luz reluzente
de uma já morta apagada estrela..., foi!


Muito claro e definido,  agora
Vejo-te mais inteiro, desfumaçado
Quando além dos Implantes seios, teus
Hormônios vejo todos , de todas
A primeira, nunca antes revelada
Grande capa de revista, para
Sempre Eternizada, amante fiel
Do Homem pintor que amava além
Do Céu, o seu legítimo grande Amor!

Além de uma simples vaga onda
Eterna Gioconda, como nunca vista
Minha querida atemporal,
De todas a mais famosa,
Nunca nos deu sequer uma única palavra
além de um belo e inesquecível sorriso,
nem uma só entrevista...

Gioconda Transformista

FC



                                      LA GIOCONDA

                                   Leonardo da Vinci

Um comentário:

  1. Fantástico !!!! Adorei as interpretações que deu ao Misterioso sorriso ....

    Bjus iluminados⭐️⭐️💫⭐️🌟✨✨

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