Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

AS NOIVAS SE CASAM DE PRETO




“A TAÇA DE VINHO”
Jan Vermeer




AS NOIVAS SE CASAM DE PRETO

os teus vitrais, sim, serão sempre eles diante de mim, amarrando-me nos pés da cama...como tua fiel servente ama,  provedora do mundo e de tuas crias, de teu nome asseguradora, perpetuadora de tua espécie, assim, como uma incubadora em tanques sem lavadeiras, sem água, sem nenhuma espécie de torneira, tu, meu amado provedor, me alimentas, e me sustentas, amado marido, tingindo de vermelho a seda purpura do meu vestido, dos meus rubis, do meu emplastro rebento....a água e o vaso do meu sustento!

eu, com uma taça de cristal, Baccarat dos olhos sem final, no próprio refinado acabamento do incontinente recipiente me sufoco, no luxo de pertencer ao fingimento mais nobre da espécie, me sufoco sem morrer, e da taça, faço aquilo que ninguém jamais fez ou faz,  uma máscara de gás, de cristal Baccarrat, de bacaralhos e baralhos esparrados pelas mesas, livros nunca lidos desgastados e moedas gastas como se fossem sobremesas, pérolas negras atiradas ao jardim, aos porcos ilimitados, costelas de Adão na minha santíssima comunhão, a minha confissão diária de prometer nunca deixar de fingir cada frígido orgasmo arrancado de meu ventre quente, meu caro provedor, não saias do meu lado, se não perdida estarei, não sei mesmo o que farei, nessa pele que habita sobre mim, esse veludo e esse cetim, não sei se os tecidos choram, mas sei que esses choram por mim....

no fundo somente uma moldura reluzente cobrindo um passado obscuro, os teus métodos que justificaram os teus fins, para aqui estarmos, sobre esse maçônico piso de marmóreo infinita ostentação, sobre os meios e os tecidos, os veludos e os recipientes, sempre preenchidos por algo de mais valor, com mais espetáculo do que o simples horror daquilo que jamais podermos esquecer, o receptáculo dos atos infamantes, pendurado na parede, obscurecido atrás de ti, o teu caminho, e os ossos percorridos, mas jamais esquecidos, cercados pela moldura dourada de tua consciência, viva, ululante, a voz dançante de teu ser supremo nesse mundo onde nós, pastando como viúvas cujos maridos não morreram, ainda, damos leites assim como as vacas dão amor, damos sorrisos socialmente, assim naturalmente, como da árvore cai uma flor... caem as flores dos sorrisos, mortos, cada vez que somos menos floridas, fingidas pétalas do pavor....

a noite se aproxima, e do quarto freme o temor

na cadeira esquecido o instrumento, o desejo à muito abandonado, esquecido, um instrumento que não funciona mais, objeto do meu desejo , som do meu louvor, paixão da minha alma, sentido do meu despertar e do meu mundo, para ser e acordar, o instrumento do meu ser, agora velho e apodrecido, caído, sem ser tocado... arranco suas cordas e me enforco sem tocar em ti, sem arrancar um único som, um único gemido de prazer, um ré sustenido de dó, pois estarás condenado entre o infortúnio de apodrecer comigo, eternamente morto ao meu lado, e a liberdade de amar somente a ti mesmo, provedor de um ser duplo de um único ser absolutamente só....

tua paixão morta pelo punhal da ganância viva

vejo uma janela para além de um cínico mundo onde os ismos se dão na pele de um machucado só...a janela dos teus vitrais... as falsas esperanças...! seria pior se estivesse fechada! mesmo assim, a taça não se quebra, mesmo fina, ao redor de mim, não se parte, a dor de cristal, que irrompe por minhas retinas, e me fazem chorar as lágrima de sal, a esposa de Ló, a mulher de um homem escolhido, o mais protegido e afinado, retificado e glorificado, que no final ficou assim tão só....tão desesperadamente só....sem portas e sem janelas...por que? como chorar outras lágrimas se sempre beberes da mesma fonte? provedor, sempre me deste o mesmo pão e o mesmo vinho. foi sempre o mesmo amor, portando, como posso te amar de forma desigual? como podes esperar que o meu amor seja diferente, se sempre regou tua flor com o mesmo desespero que regaste a tua dor?

Sinto dessa tua vida em corredor , somente o choro de uma mulher sem nada, sem diamantes, sem carros flutuantes,
sem barcos de caravelas, sem veludos,
sem aquarelas...

sinto o vento entrando pela fresta do canto superior,
abro a janela,
me estendo ao abismo além de nós
espero
que tu o faças, que tu o quebres...

o mesmo silêncio entre nós
o desespero
a máscara de gás
e os silêncios incontidos
nas inquebráveis taças
os cristais de Baccarat

FC

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