Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

domingo, 7 de junho de 2015

O PENISTENTE

Dos tantos sonhos caídos, dos tantos tecidos, escuto o som da escuridão quando fecho os olhos, e percebo o quando foi em vão... as gravatas forçadas em cima da mesa, os relógios dourados brilhando no pulso, os colarinhos sem voz, estalando no pescoço, enforcando a minha nudez de ser esse pedaço de carne em busca de um certo silencio, quando sozinho posso tolerar  tudo aquilo que se desmancha em mim, tudo aquilo que se desfaz, todos os grandes fracassos, e os pequenos também, os projetos que nunca foram realizados, os esforços e grandes esperanças, as expectativas de sermos mais do que somos, quando da carne em putrefação preenchemos da vida mais do que um quarto com um vaso de plantas mortas e um alguns latidos amigos de um pobre animal, coitado, devo ter esquecido de comprar ração, devo ter esquecido de me lembrar que além de mim tenho algo para cuidar, o mínimo que seja, um vaso para regar...Deus meu, devia ter comprado um cacto, alias, já comprei um e ele morreu, de sede... sabe Deus porque, sabe Deus como isso aconteceu...essa samambaia foi um amigo que me deu...amigo? se é que posso dizer que tenho amigos... assim no infinito de um minúsculo quarto tão imenso, que parece o mundo inteiro, envelheço como o resto do mundo, fechando os olhos, e vendo tudo escuro, e preto, sozinho não escuto nada, sequer a voz interior, nada, sequer um ruído de respiração, não vejo nada além da escuridão refletida na treva do que posso ver, os olhos fechados, e um medo velado, no fundo desse mundo preto, um certo medo inconfessável de morrer, assim, apertado nesse peito envelhecido, manchado, os tecidos caídos, os membros flácidos, moles... eles não sobem mais, nem quando vejo as crianças nuas no jardim do vizinho, os filho do senhor Alceu, elas brincam molhadas, todas empertigadas de sabão, assim, com os peitinhos cheios de vida, engomados pela doçura pertencente aos anjos, pela lisura cabível a todos os meninos nus, que se tocam, que se encostam sem perceber a cruel malícia do mundo, sim, mesmo assim essa minha flacidez tenebrosa não permite-se a ficar enrijecida, como antigamente, como sempre foi, quando eu era jovem e potente, um ser humano comum, esmagador, andava pelo meio das gentes, indiferente, com os mesmos olhos, com os mesmos trejeitos, mas minha podridão eu só guardava pra mim, não tinha esse tom de flacidez na pele, não tinha saído para fora, como pústulas ao luar...sonatas carnívoras de inverno infernal...agora eu não sei bem o que faço, estou um pouco abatido, dividido e entediado com a monotonia da vida, não sei se rego a planta ou se saio para comprar comida para o cachorro? Acho que durmo mais um pouco, ja está prestes a amanhecer... sim, o sono é sempre a melhor forma secreta de vivendo-se, morrer.

FC






                                          DAVID ET ELI

                                          Lucian Freud

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