Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A UM PASSO DA ETERNIDADE

Escorriam traços, assim traçava o teu caminho entre um lado e o outro do mundo....
Uma ponte, para atravessar a distância dos objetivos dos teus olhos nos meus
Captadores de luzes e de cores...
Uma ponte para atravessar o mundo, numa linha...
Reta de pontos inexistentes, onde somos todos infinitos, 
entre eu e você, 
infinitos pontos, 
uma eterna distância que se desmancha no primeiro aperto de mão, no primeiro olhar!
uma ponte se traçava, um olhar desmanchando o infinito na paisagem tão distante, 
quando somos todos cegos num mundo de cores pessoais... 
existe aqui mesmo uma mancha? 
Existe em mim um pedaço do teu olhar, e entre nós essa ponte, equidistante, um mundo atordoante para além da escuridão do olhar, como poderia deixar de te ver, maravilha do horizonte? 
Como poderia deixar de ser verde, maravilha de olhar? 
Como poderia deixar de te amar?

Misturado, diluído, cores amantes misturadas no indissolúvel impalpável do instante, 
o que aprendo com um único olhar, e não consigo esquecer, e não consigo deixar de ver e perceber em todos os detalhes do mundo tudo o do que mais gosto em você, de tuas cenas, de teus quadros, tuas tintas escorrendo pelos lados, manchando o mundo com teu calor revigorante e queimando os desafetos glaciais da incertezas mundanas com a suavidade esverdeada de um lenço de seda que escapada de tuas mãos macias e vai assim pelo mundo caindo pleno e lentamente, tingindo a paisagem e iluminando os contornos obscuros sombreados da ausência de luz, e vai assim caindo, caindo, como o sol que cai, e cai  sob os pés de um bruto marinheiro seduzido, fascinado pela beleza dos contornos sem palavras, pelos silêncios esculturais de tuas formas delicadas e perfeitas, adequadamente gentis, sabiamente colocadas. 

As paisagens que existem dentro de nós, e me tornam cego para o mundo quando nelas me perco, quando no teu verde me afundo, e me dissolvo como tinta no quadro da memória dissolvida, embrenhada nas lembranças da vida, no nascimento dos dias, da água do mar de esmeralda escorrendo pelos meus pés, as ondas e os poucos mergulhos que me restam, o sol se despedindo no horizonte, e teus lindos, lindos verdes olhos, pintados na inesquecível tela, como uma ponte que nos liga, para além da eternidade, quando uma vida não cabe dentro de um oceano só, em si mesma transbordada de tanto ser, quando vivo, mais cego a cada dia, te perdendo um pouco mais, luz do meu querer, sol do meu ser... dor de não ter o que mais valoro! ... a lucidez de uma clara visão da Vida eterna ao teu lado, luz de cor e coração! Destino implacável...que nos una, que nos ate, que nos faça ser...
Para assim atravessarmos e ressoarmos menos distantes dos pontos manchados, misturados,
Do outro lado da vida,
Espero-te
Do outro lado da ponte



FC




                              "A PONTE JAPONESA"

                                    Claude Monet

Um comentário:

  1. emocionante esse,infinitos pontos , uma eterna distância que se desmancha....q força tem eesa frase,e vc termina com o questionamento da nossa fé...tocante

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