Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

VACA PROFANA


Todos os dias assim quero acordar,
E tuas lágrimas berrantes, despejar

Abençoado secreto lugar vives em ti
Onde sequer meus olhos podem tocar
Essa luz de luar fugidia, o vento de
Uma brisa encosta minha pele, e sinto
Ser teu ser, ao longo estendido e longo
Parecer e desaparecer de nossos sonhos
De casamento que se deu sobre os telhados
De uma lua de mel, de uma gota sorvida de teu
Seio tão doce, tuas pupilas tão minhas,
Tao sentimentais, e enigmáticas, esse algo
De impenetrável em ti, aquilo que tu és e
O aqui que tu mais quer, acima de tudo, ser
Minha verdadeira mulher, em pele de homem
como esposo-te sendo tudo aquilo que quiser
No paraíso acima de nuvens, como posso
Ser somente um sonho, se sonhas todos os
Dias os mesmos prazeres velados sobre
O contorno de uma mesma face, o teu rosto
Secreto, misterioso, simbólico rosto do
Impassível, do indizível e desconcertante
Não saber, se me despeço, ou se fico mais
Um instante, no teu quarto, ou na tua vida,
No teu silêncio, ou nos teus discursos,
Quando parafraseias o mundo inteiro
Num único olhar de desejo e flor, quando
Sobre a areia, estendia e rendida, se
Sobressai como uma rocha em alegria
Esculpida e expulsa da terra, uma encenável
Aparição cuja beleza inigualável me faz
Desacreditar que existe sequer um sussurro
Obscuro no mundo, cujo traço fino de uma
Tessitura perfeita e rigidamente formal em
Tua aveludada significação, cada vez que moves
E traças no mundo um novo significado simplesmente
Com uma nova linha de traço significando uma
Nova e reluzente expressão, fervo de tanto sorrir
oh magnifica criatura, quem tu és? Da onde vieste?
Que és, como posso desacreditar da essência
Matéria dos sonhos, dos resíduos de areia
Na praia que sonhavas, onde teus pés ainda
Intocados pelo mar deixavam em teu rastro
Meteórico o perfume geralmente esquecido
Pelos anjos quando estes, cansados de dançarem
Sobre as nuvens, visitam a Terra, rápidos e efêmeros
Tal qual nosso amor no verão passado, nos dias
Vermelhos de por do sois imaginários celestes dos
Quadros, e dos canários dentro de mim, como
Posso não te enxergar em uma flor no céu, se
Pondo em fogo, princesa do Taj Mahal, vaca sagrada
E profana para mim, morta em meu sonífero
Dia, o desaparecimento da minha memória
Enquanto duro, enquanto vivo, enquanto sou
O desaparecimento de mim em cada pedaço de
Flor que tocaste com teu brilho, cada pétala
Iluminada pelo singelo olhar te tua doçura,
Onde estão agora? Essas pétalas iluminadas,
Essas gotejantes sanguíneas flores escarlates?
Onde estão nesse mundo temporal e mortífero
Minha deusa musa do sentimento mais vivo,
Aquele que morre, e morre morrendo sem
Falar nada, morre existindo em tudo, e sobre
Tudo deixando suas lágrimas silenciosas de
Saudades imortais,  as páginas viradas do
Teu rosto, e cada vez que me olhaste dentro
De mim e um mundo inteiro plantaste,
Simplesmente sem fim, sem por quês , sem
Premeditações, consequências de atos insurgentes,
As montanhas nascentes das cordilheiras
Dos instantes, dos cumes inalcançáveis de quem
Somos, que estarão sempre lá brilhando para nós,
Com suas pontas alva e faiscantes,
Os cumes dos pássaros que não voam baixo
O amor eterno
Sem fim
Os olhos de oceano,
e as flores vermelhas sorrindo no jardim
tu fizeste eu acreditar que poderia de novo
viver como uma estrela nua,
sem o perene perecimento do desejo...
o amargo dessabor de um dia se apagar novamente
como um sol que morre ao teu lado
e sem mais nem menos,
simples assim,
parar de brilhar!



FC




                        "DEDICAÇÃO À MINHA MULHER"

                                      Marc Chagall

Um comentário:

  1. Lindo,Lúdico... Amoroso,O mistério da atração e da paixão...do encantamento e um pouco do fim do romance... mas com esperança, porque o sol sempre renasce🌹🌹🌹👏🏼👏🏼👏🏼👊🏼❤️👊🏼🙅🏼😍😘

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