Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

sábado, 6 de junho de 2015

ALIBABÁ E OS 40 LADRÕES

Os quadros dentro dos quadros, silêncios dentro de silêncios em tempos que nada mais falam.... assim somos, telas das premonições, quando meninos cheios
De sonhos morremos aos poucos em lentas e quase imperceptíveis degenerações...

O que traz  a ostentação e a soberba? O que são meninas puras depois da demolição irreversível da primeira penetração? Colônias erguidas sobre as matas virgens, devastadas, povos queimados, costumes deflorados como flores de estação, rosas, margaridas e gerânios,  todos eles empalados, eviscerados de uma só vez, no pendente de um só crânio...as previsões amargas de um quadro pelo silêncio emoldurado...pela sordidez de saber que dias passam e os atos ficam, assim como os ossos, enterrados no passado...

Belo e magnífico quadro!!!

Onde um rosto não foi pintado, o rosto de Hernán Cortés de Monroy y Pizarro,  o seu rosto e seus louros, onde os olhos brilhantes das infantes meninas, também Therezas, também Margaridas, foram as flores arrancadas dos campos, ceifadas da vida...valiam apenas cintilantes pedras de ouro e nada mais...foram esses os seus louros, e talvez por isso vacilante, o rei Felipe e sua esposa Mariana não adentram na pintura, já sofrendo as tremendas dores de uma culpa, quase uma ponte para a senil e precoce loucura!

Um império construído em cima de crânios e esqueletos, talvez por isso,  deliberadamente
Os seus rostos permaneçam opacos, nos observando inquietos, alarmados no fundo, assaltados pela vergonha de um passado aniquilamento de chacina tamanha, e nas profundezas de suas entranhas mais humanas, sofrem a certeza de um pressentimento do hoje do que daquilo que seria e está sendo a magnânima invencível Espanha, vitimada pela fome e pelo desemprego, império da decadência....assombrada pelos fantasmas dos seu passado, vítima de seus erros... as famílias dizimadas atravessaram o Atlântico navegante para se instalarem no subconsciente de uma nação Imperial,
E assombrá-la, e assaltá-la, e dizimá-la...

Sorridente na pintura, um pintor serviçal, cujo talento descomunal não podia revelar tanta dor e tanta tortura numa só tela de fria morte onde o motivo era
A mais pura compostura, bela e cordial da honra e dos méritos, cujo espelho refletia os reflexos já esmaecidos de uma dor colonial, as palavras sem molduras!  

Gigantes viram anões, reis viram vilões, e não importa qual justificativa ou lei inventada para consolidar injustas Constituições, um assassinato será sempre um crime e perpetuará eternamente uma sociedade de párias e de ladrões...

As estupradas meninas e os vilões fratricidas...
Vozes sem perdões!!!
Viva o Império de Homicidas!
A esquadra sem corações !!!


FC



                                         AS MENINAS

                                       Diego Velázquez 

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