Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

JESUS ALEGRIA DOS HOMENS

Jesus, alegria dos homens na mira da bala,
Sublime torre de uma impotente igreja santa
Tijolos inertes não dizem nada, tijolos não
Calam a bala...
Tijolos não falam quando os sinos são mudos
Os sinos surdos dos nossos mundos...pequenos
De tijolos de pele, de carne, de alma
Tijolos que morrem com a bala
A bala que fala
Quando os sinos não dobram
O fatal silêncio das balas
Que falam, que cantam, que sangram
Os tijolos dos homens santos
Que morrem tantos e tantos
Por nada, simplesmente por nada
Atravessados pelo canto de uma bala que fala
E que chora, e que canta
O desespero de matar-se indiscriminadamente
Culpados e inocentes
Eles morrem, sem lágrimas
Sem abraços, terrivelmente sós
De braços abertos, como anjos sem enterro,
Anjos sem asas
Sem cova,
Desterrados,
Sem culpa de nada,
Sem erros,
Morrem simplesmente
Porque uma bala quis cantar
Suas vozes surdas e onipotentes
As vozes soberanas
Dos silêncios das balas
As balas que falam
Mudas metálicas e sádicas fálicas cantantes
As balas amantes
Dos peitos trovejantes
Morrem sagrados
Pelas próprias mãos
Ambos os lados
Condenados
Pelas perpétuas balas das vozes metálicas
Do abismo inevitável
E da subconsciente escuridão



FC



                       "OS FUZILAMENTOS DE 3 DE MAIO"

                                 Francisco de Goya

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