Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

sábado, 13 de junho de 2015

O PALHAÇO DO MUNDO


                                  PAUL EN ARLEQUIN
                                       Pablo Picasso






O PALHAÇO DO MUNDO


Lágrimas coloridas penduradas na parede
Emolduras pela eternidade
Das molduras do silêncio em torno de um sorriso
Que não se prende nunca
O sorriso de um palhaço menino
Um sorriso que dura para sempre
Teu sorriso para sempre pendurado na parede
Do pai que pinta o filho
Do menino que cresce colorindo
Lágrimas e sorrisos
As dores coloridas no mundo
Tijolos silenciosos, e os pregos nos tijolos
Tão sem pele, sem maquiagens,
Tão desnudos
Sorrindo sempre, tão profundos
Esses palhaços
Meninos
Sofrem sem falar, quando diante das dores da vida dão um sorriso,
E choram sorrindo
Mudos
Esses arlequinos
Colorindo os silêncios das nossas paredes
Emoldurando os sonhos dos nossos futuros
Para sempre dentro de nós
Um alegre e triste palhaço
As cores dos nossos pais
E os amores perpétuos

Pelas tintas vivas brilhantes do mundo


FC




Gostaria de agradecer à todos que acompanharam esse trabalho, e dizer, que hoje, após essas duas semanas, com a conclusão da quinquagésima obra, encerramos a primeira fase desse projeto, sua criação. Agradeço de coração todos que acompanharam, comentando ou se resguardando ao sagrado silêncio das nossas molduras. OBRIGADO e se Deus quiser, nos vemos em BREVE!

com carinho,


Fernando Castro

CASTA DIVA



                      " O SALÃO DA RUE MOULIN"
                           Henri de Toulouse-Lautrec





CASTA DIVA 


As meias calças do fim do mundo, os quartos escuros e vermelhos
Meias calças e meias putas,
Nos quartos dos homens das moças virgens,
E dos meninos putos cujos reflexos se comiam dentro dos espelhos
Se comiam aos pedaços, por inteiro
Cada músculo
Cada carne gesticulava uma vontade impessoal
Cada membro interferia no conjunto como se fosse um particular
Movimento de um falacioso imodesto aglomerado de relaxáveis tensões inflexíveis


Eram todos eles virgens e ordinários, todas elas meninas com rosto de
Princesas, as pérolas negras do fundo do mar.., onde afundavam-se
Os transatlânticos, as transas dos transoceânicos, os transcendentais
Transexos dos animais, dos necrófilos, dos pedófilos, dos zoofilicos, dos anamórficos, dos anões, dos transmissíveis venenos escorrendo pelas paredes vivas
os transversos e os transexuais... os tântricos transpostos e os transcursais completando  
a infinidade da cena
Das bizarras barbaridades sexuais

o tipo de lugar para se tornamos um pouco mais indecentes, para podermos pertencer um pouco mais a esse mundo.... exatamente! o nobre sentimento da indecência coletiva, éramos perdoados e ali diluíamos nossas culpas junto ao todo universal, éramos crucificados sendo indivíduos livres liberados de uma suposta inexistente cruz... estávamos vivos, pulsantes, carnais e mais sexuais do que  um carnaval de Veneza sem máscaras, onde toda cidade andava nua...mais canibalescos do que todas as orgias de Paris aglomeradas num único porão... as nossa mentes em flutuação, germinando o próximo lugar, o próximo encontro, e a próxima dose de diluição...a santa moralidade da moderna beatificação ... carnal! 

Ali era o tempo onde recebíamos a hóstia e a comunhão! Sagrada libação do culto dos nossos dias! Libiamo...

O cenário pós apocalíptico quântico de um semântico tântrico aquântico atlântico
Derramar de mares e jorrares de meninos salivantes, de estátuas vivas
Ejaculantes....

Os gritos presos nas paredes,
Lustres balançando com o frenesi dos corpos uivantes
Os uivos e as correntes
As mãos da escuridão apalpando os meus quadris
Os teus lábios febris
No veludo vivo santificado das divisórias das baias
Coveiros e carniceiros
Bruxas pirofágicas
Incontáveis homens na fila do banheiro
Os homens  incendiários do couro e festim
Do vinil e do chicote
Das latas de lixo e do serrote
Ser humano mascote
Do pior que sempre encontrou para si
Apenas para ter uma sensação de não vazio
Presa na coleira
Prostitutos da alma que não tem preço
Onde encontramos um bordel de tamanha desumanidade?
Realmente
Hoje eles se espalharam por todos os lugares

Vendo meu corpo com apreço
Mas minha alma continua com endereço

E aquele que meu corpo comprou por algumas horas,
O que de si tinha vendido para o Cafetão dos Espíritos Santos?
Meu pai eterno
Vender o que não tem preço
O que não tem retorno?
Há algo de errado nisso
Os prostitutos da alma, de sofisticados endereços, que pagam as putas tristes
que vendem o seu corpo, mas pagam a conta da luz...
Nisso vejo distorções!
Trevas e cargos de grandes fundos,
Internacionais e monetárias instituições
Os altos cargos dos prostitutos financeiros
Pagam as nossas putas meninas
E fazem um tráfico de almas
Instituindo a máfia do próprio enterro
Os cargos de coveiros que passam uma vida sentados em cima de um banco
Os coveiros banqueiros
que não tem alma 
que não tem cargos
que não tem nada
no final
pra barganhar
para não se atirarem de uma cobertura de luxo
do topo do último andar
venderam suas asas
para o demonio
e há muito 
desaprenderam a leve e inocente
capacidade de voar
inerente àquela menina triste
que por uma nota de 100 libras
ou uma uma grama de heroína
fica de quatro uma noite inteira, 
sem calcinha, 
em cima da mesa
deixando todos aqueles monstros
de Alzheimer tremerem e babarem
suas gotas semeadoras de 
tristezas...e lágrimas de perversão
as putas mortas em cima da mesa
presas incendiárias na pirofagia
das cobras víboras do colchão




A meia noite no escuro do salão, nada mais do que gritos
Almas socorrendo um lamento de perversão
Solidão jamais
Eram quentes e vulcânicas explosões
Das precoces ejaculações humanas
Eram atemporais e fugazes
Eram as fugas e as pazes
De ser um enorme e profano puro prazer
Absoluto incontestável
Ser
Escorrendo pela pele
Transpirando
Pelo grito
Do suor
Latejante e visceral
Os meninos e as meninas
Os homens e as mulheres
Os humanos em geral
Se arrastando no gozo de pertencerem a mesma espécie
Se lambuzando na mesma cor
E no escuro se misturavam
Sem distinção
Se transformavam numa só carne
De mesmo pulso
E gestação,
Um só útero
Penetrado
Por uma fálica
União

O gozo
Interminável gozo
Poético da carne eterna
E profana
De uma momentânea ejaculação
O tanto que se ama
Para se gozar no fim
O tanto que se coloca
Para segurar o máximo das peles
E dos prazeres soltos como um vendaval
Temporal dentro de mim
Todos iluminados pela escuridão
Ali eram iguais
Da mesmas cor do pecado
Sem nenhum preconceito
Sem nenhuma distinção 
uma voz de esperança
e um grito de perdão



 Assim voam os anjos até o final
Atravessando os muros do jardim
Assim estavam as sorridentes putas profanadas, de pele amarelada, esperando o próximo cliente
Com suas meias calças esticadas, rasgadas, soletradas pela indistinta falta
De opção, de serem tudo aquilo que são, e até poderem disso tirarem algum
Proveito
As putas e os putos
Imperfeitos
Sem defeitos
Humana imperfeição
Quando somos todos clientes do vício da carne
Eterna
Quando te quero nas memórias do amanhã,
Sem pensar, sem engano, sem acabar
Gozando sempre
Pelas janelas
E pelo quintal
Te quero feliz
Sempre assim
Completamente: Nu

Mesmo quando for embora
E nesses teus olhos de bordel
Botares um ponto final
Meu puto carniceiro
Meu menino celestial


FC 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

AS NOIVAS SE CASAM DE PRETO




“A TAÇA DE VINHO”
Jan Vermeer




AS NOIVAS SE CASAM DE PRETO

os teus vitrais, sim, serão sempre eles diante de mim, amarrando-me nos pés da cama...como tua fiel servente ama,  provedora do mundo e de tuas crias, de teu nome asseguradora, perpetuadora de tua espécie, assim, como uma incubadora em tanques sem lavadeiras, sem água, sem nenhuma espécie de torneira, tu, meu amado provedor, me alimentas, e me sustentas, amado marido, tingindo de vermelho a seda purpura do meu vestido, dos meus rubis, do meu emplastro rebento....a água e o vaso do meu sustento!

eu, com uma taça de cristal, Baccarat dos olhos sem final, no próprio refinado acabamento do incontinente recipiente me sufoco, no luxo de pertencer ao fingimento mais nobre da espécie, me sufoco sem morrer, e da taça, faço aquilo que ninguém jamais fez ou faz,  uma máscara de gás, de cristal Baccarrat, de bacaralhos e baralhos esparrados pelas mesas, livros nunca lidos desgastados e moedas gastas como se fossem sobremesas, pérolas negras atiradas ao jardim, aos porcos ilimitados, costelas de Adão na minha santíssima comunhão, a minha confissão diária de prometer nunca deixar de fingir cada frígido orgasmo arrancado de meu ventre quente, meu caro provedor, não saias do meu lado, se não perdida estarei, não sei mesmo o que farei, nessa pele que habita sobre mim, esse veludo e esse cetim, não sei se os tecidos choram, mas sei que esses choram por mim....

no fundo somente uma moldura reluzente cobrindo um passado obscuro, os teus métodos que justificaram os teus fins, para aqui estarmos, sobre esse maçônico piso de marmóreo infinita ostentação, sobre os meios e os tecidos, os veludos e os recipientes, sempre preenchidos por algo de mais valor, com mais espetáculo do que o simples horror daquilo que jamais podermos esquecer, o receptáculo dos atos infamantes, pendurado na parede, obscurecido atrás de ti, o teu caminho, e os ossos percorridos, mas jamais esquecidos, cercados pela moldura dourada de tua consciência, viva, ululante, a voz dançante de teu ser supremo nesse mundo onde nós, pastando como viúvas cujos maridos não morreram, ainda, damos leites assim como as vacas dão amor, damos sorrisos socialmente, assim naturalmente, como da árvore cai uma flor... caem as flores dos sorrisos, mortos, cada vez que somos menos floridas, fingidas pétalas do pavor....

a noite se aproxima, e do quarto freme o temor

na cadeira esquecido o instrumento, o desejo à muito abandonado, esquecido, um instrumento que não funciona mais, objeto do meu desejo , som do meu louvor, paixão da minha alma, sentido do meu despertar e do meu mundo, para ser e acordar, o instrumento do meu ser, agora velho e apodrecido, caído, sem ser tocado... arranco suas cordas e me enforco sem tocar em ti, sem arrancar um único som, um único gemido de prazer, um ré sustenido de dó, pois estarás condenado entre o infortúnio de apodrecer comigo, eternamente morto ao meu lado, e a liberdade de amar somente a ti mesmo, provedor de um ser duplo de um único ser absolutamente só....

tua paixão morta pelo punhal da ganância viva

vejo uma janela para além de um cínico mundo onde os ismos se dão na pele de um machucado só...a janela dos teus vitrais... as falsas esperanças...! seria pior se estivesse fechada! mesmo assim, a taça não se quebra, mesmo fina, ao redor de mim, não se parte, a dor de cristal, que irrompe por minhas retinas, e me fazem chorar as lágrima de sal, a esposa de Ló, a mulher de um homem escolhido, o mais protegido e afinado, retificado e glorificado, que no final ficou assim tão só....tão desesperadamente só....sem portas e sem janelas...por que? como chorar outras lágrimas se sempre beberes da mesma fonte? provedor, sempre me deste o mesmo pão e o mesmo vinho. foi sempre o mesmo amor, portando, como posso te amar de forma desigual? como podes esperar que o meu amor seja diferente, se sempre regou tua flor com o mesmo desespero que regaste a tua dor?

Sinto dessa tua vida em corredor , somente o choro de uma mulher sem nada, sem diamantes, sem carros flutuantes,
sem barcos de caravelas, sem veludos,
sem aquarelas...

sinto o vento entrando pela fresta do canto superior,
abro a janela,
me estendo ao abismo além de nós
espero
que tu o faças, que tu o quebres...

o mesmo silêncio entre nós
o desespero
a máscara de gás
e os silêncios incontidos
nas inquebráveis taças
os cristais de Baccarat

FC

OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS AZUIS






“A CRUZ BRANCA”
Wassily Kandinsky




OS CAVALEIROS TEMPLÁRIOS AZUIS



traço de uma gloriosa redenção
traço de um rastro
traçados
os traços
traças
traças e traços
traças que traçam os traços da nossa gloriosa Redenção
traças que traçam os traços traçados da nossa traçada gloriosa Redenção
traços de traças que traçam os traços traçados da nossa gloriosa traçada Redenção
traçados os traços dos gloriosos redentores
redentores e seus traços de Redenção
redimidos os traços dos rendidos traçados sobre as dores das traças que traçam
os traços e que das traças que não são mais do que traços
dos traços do nada
de tudo que és
um traço
do que sou
uma traça em minha página
um traço em teus pincéis
os olhos das cruzes
tortas
as cruzes mortas
das traças que falam
e traçam os caminhos
das redenções
os caminhos das concretas intepretações
nas puras reais vitais abstrações
as vidas e as ilusões
de ser mais do que traça
e traço
e irredimíveis
sensações
vistas
nas telas
e nas
páginas
dos nadas
completos
de tudo
que já foi
alguma coisa
para alguém
no final
e no começo
de um novo
e concreto
mundo
o início da minha
abstração
nos traços imperfeitos
da total
falta de sentido
das tuas traças
persecutórias
e críticas moratórias
de uma abstrata possível vitória
por somente existir e nada mais
numa concreta
oposição
onde somos
crucificados
abstratamente
em cruzes
brancas
pretas
vermelhas
marrons
na
concretização
da morte real
da minha vida
pelas
tuas
mãos
concreta crucificação
de plenitude dos fatos abstratos
os reais silêncios falados nas telas onde tudo se vê
os traços do nada
e as traças que comem as tintas
e as páginas
dos sonhos
reduzindo
o mundo
em
uma abstrata
concreta
ilusão
as traças da fome
e as cruzes traçadas no destino
de um homem só
abstrato no mundo
crucificado
tanto pelo sim
tanto pelo
não

“reconstrua o nada que sempre fomos
ou saia das telas dos pensamentos
abstratos
e mudos
sem direito
sequer ao
exílio
da própria abstração
morto numa indiferença
sem voz
sem direito
a solidão
traçado assim está o teu destino
irrevogável sobre ti
está
lançada
das traças sem traços
a tua execrável
sórdida
arbitrária
maldição

é o Tudo ou o Nada
é Agora
o Sim
ou
o Não"




FC

quinta-feira, 11 de junho de 2015

NATUREZA HUMANA



                              "O NASCIMENTO DE VÊNUS"
                                        Sandro Botticelli






NATUREZA HUMANA


assim tão clássica, vossa Alteza,
como devo lhe chamar?
quando atirado aos teus pés me coloco subordinado
totalmente atravessado
desconcertado
destituído de todas as minhas certezas
somente por um instante de teu olhar ter em mim mesmo capturado
aquilo que sei ver
e distinguir, aquilo que sei identificar
o que não posso enganar, e distorcer
aquilo que sei ser
tão certo como vejo
o mundo ao meu redor
empurro para o meu subconsciente
o claro e manifesto desejo
de existir e não resistir
a querer somente
por um instante apenas
poder te possuir
total e completamente
minha Alteza
os teus traços dentro de mim
chama que todos chamam Beleza
a tal insustentável
incomparável
leveza
absoluta
que queremos todos ter
podes ser uma  completa perdição,
pois não escolhes para quem se doa,
na espuma do nascer
e somente possuir-te é o suficiente para ser detestado
palavra sequer precisa
mudo e calado
num mundo onde a morte da Beleza há muito já foi decretada
o seu obituário
em corredores de incertezas e submundos
onde os carrascos retalhados
dominam as estradas de asfalto e fé
seu dom é uma virtude perigosa
pois nessa Terra de vilezas
caçados são os olhos da Beleza
como esmeraldas e rubis
vendem seu sursis os caçadores de recompensas
virginal incólume pureza

amantes dos diamantes
ou
diamante nos dedos dos amantes?

sua integridade é posta em cheque
por jogadores que escondem as cartas sobre a mesa
vossa Alteza,
por que és tão rara, e tão dúbia?
abalando humanas fortalezas
testando retidões ao cume de sua nobreza
confirmando-se a firmeza das cordilheiras humanas inabaláveis
o caráter e a honra
quando ultrapassados por ti
a firmeza de resistir-te
com divina delicadeza
pois para mim, vossa Alteza,
 não caberia nada
absolutamente nada
 num mundo
onde ausente estivessem os teus traços
um mundo de tristezas
pois morto seria um mundo sem Beleza




"é como voar sem saber
é como ser sem precisar
é como olhar além de ver
é como chorar e se inundar
é como rir e não parar
é como ter e sempre dar
é como um céu a mergulhar
dentro dos olhos de alguém
é como uma cor nascendo sempre
em algum alvorecer
é como uma luz que nunca apaga
é como um sonho infinito
é como uma felicidade silenciosa
é como estar ao teu lado por apenas alguns instantes
e dividir as cores do mundo
com o teu jeito explícito de ser
é como ser surdo contigo e o canto dos pássaros
escutar
é como ser um oceano
e em si mesmo mergulhar
é como ser uma flor
e não morrer nunca mais
é ter o doce dos teus olhos
e o perfume dos anjos
as asas dos deuses imortais
é navegar sem voltar jamais
é nascer no horizonte das manhãs
é se pôr nos horizontes das tarde sem finais
é não perder um instante sequer dessa vida inteira
é estar de mãos dadas com algum milagre sem saber
é se desapegar de tudo que passa
e amar tudo que vem
e se doar a quem se ama
e dividir o pouco que se tem
e fazer de uma tristeza
as ruínas coloridas da vida
e de uma doença uma escada
de uma morte um adeus
de um espelho um tempo para pensar
em o que fazer em seguida
e sorrir lembrado o que já se fez
com calma, com tempo, com alegria
é de um jardim ser o florescer
é tudo isso e um pouco mais
se sendo sem saber
é quando se sorri
mesmo no escuro
quando todos dormem no mundo
é quando não se desiste,
mesmo quando tudo na vida insiste
da magia de viver
e lutar para ser algo melhor e maior dentro de si mesmo
é viver sem morrer um pouco por dia
é dormir e sonhar quando se fecha os olhos
e poder dizer
sim, hoje o dia existiu belo dentro de mim,
é estar aqui e poder sempre aprender
e sempre, sempre
poder dizer
OBRIGADO"





FC