Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

sábado, 6 de junho de 2015

UMA ESTRELA CADENTE

Perdoa-me, estrela do meu dia
Sol luzente das manhãs, alegria
Perdoa-me por te perder, e te
Chorar em lágrimas de tinta, e
Te pintar em dores para além
Da nossa carne e junção, amor
Meu para além da vida, bate
Fraco coração, perdoa-me por
Não te ver e cego não te segurar,
Perdoa-me por morrer antes
De ter podido te salvar, humana
Flor da Eternidade, humana dor da
Desesperança, a minha cria
Em ti morrendo, o nosso
Filho em ti nascendo, chamado
Futuro, teus olhos diamantes, para
Sempre cravejados na minha
Memória, eternizados pelo
Amante mais imortal existente
Em meus volúveis passos, meus
Erros tão constantes, perdoa-me
Por ser tão fatal a cada despedida
E tão carnal a cada  retorno, pele
Minha do ser atemporal, quando
Olho para as estrelas e posso ver
Teu rosto cintilar, mesmo nos
Dias mais nublados, posso ver
O sorriso esplendoroso
Que morte nenhuma jamais
Irá apagar, meu Amor eterno!

Falecimento, perdoa-me por ter
Deixado-te cair, e te pintar sem
Olhos para o caminho não
Ver, para a queda não pressentir,
Perdoa por ser tarde demais e
Por estar chovendo tempestade
Borrando os teus contornos
Sobre a tela e sobre a distância
Que nos separa, que nos alcança
Perdoa-me por te apagar, das
Nossas Memórias,
Das minhas lembranças,
Perdoa-me por não ter te amado
Um pouco mais para transbordar
O sentimento que cabe
Em mim, esse Amor, intenso,
Amor, sem falar, num
Único retrato, teus olhos
Sem fim, tua alma ao meu
Lado, para todo e desesperado
Sempre, além do tempo
Que somos algo que sentimos
Ser, humanos simplesmente,
Perdoa-me por te perder
Por assim, ter te deixado
Partir, são tantos os termos
Voado, ou fugir....perdoa-me
Por não ter tuas mãos segurado
E no abismo do destino ter
Deixado-te cair!

Perdoa-me por não conseguir
Por não ter conseguido
Em tua vida de sempre,
No silêncio
Calmamente
Em paz
Sozinho
Existir....



FC




                                JEANNE HÈBUTERNNE

                                   Amedeo Modigliani 

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