Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O LAGO DOS OLHOS

O que há de mais belo em mim do que nada do que não for eu? E além de mim, nada neste mundo fenecente, sequer um Sol em apogeu, com esplendor fervente ou solidão crepuscular, beleza maior jamais resplandeceu.

Quando da vida sou a pura Beleza, efêmera enquanto dura minha eterna frieza, de olhar e assegurar-me cada vez mais numa inabalável certeza, que a mim, e a mim somente,  mais do que a qualquer outro ser mortal ainda vivente, foram dados os olhos puros da Beleza....Oh Imortal Beleza que arde enquanto dura o seu não perecimento... que nos queima a pele, metamorfoseando belos rostos em esculturas!


Oh santa maldita pureza, de olhar-se sem se trair da humana a condição!
De viver sem revolta inocente provocar, somente por existir tamanha beleza em teu passar.... belo jovem cândido e abnóxio, se torna capataz, vítima e presa, pois preso pela feral bestialidade humana, parasita e feia, vinda para lhe sugar, e sugar sua Beleza e eternidade apenas, aprende também , com seus algozes seus traços perfeitos a utilizar, para destinos humanos traçar,  e seu implacável desejo saciar, num corolário de impotentes seduzíveis vitimas sem alma, corpos quentes para se colecionar!


Hermafrodita dos dois mundos, quando caça sua presa,  e é ao mesmo tempo caçado, cativo predador, tua finda e rara Beleza te traz as lágrimas verdadeiras da solidão e da tristeza.... Somente resta a ti mesmo para olhar, nesse sepulcro de silêncio tão mortal, somente a ti e a ti somente, deverás ser crente, deverás, enamorado de ti mesmo condenar-te peremptoriamente, a conhecer-te a ti mesmo perpetuamente, uma vez traçada maldição de uma necromante irascível, jamais perdoando-te por tornar-te tão inacessível !!! 


Olho encantado, sobre o dentro de mim refletido aos cantos de um espelho lascado, e choro, uma lágrima de duvidosa certeza! Pois o espelho vibrante por fora da alma impura não revela os segredos de dentro, e assim, aceso, belo triunfante, como um virgem temporal de veraneio, permaneço escondido, embora refletido, sem saber se a lágrima escorre das sinceras profundezas, ou se somente um lapso lendário e temporário, frente tamanha refletida nobreza.... as peles entregues ao reflexo, indefesas, não tinham como falar mais sobre um mundo de tristezas, não tinham mais como chorar, diante dos olhos da Beleza, riqueza de um ser cuja escultura se fez permanecer nas vibrantes cores de uma flor, uma dor glacial de uma vaidade tão humana, cuja pureza lhe fez brilhar nas pétalas do violáceo olhar florido, da face, exposta nudeza, exposto ao mundo em plena crueza, aos olhos de tantos amargos cinismos de olhares obrigados a coroar com mãos viperinas uma face de realeza tão felina...
Em sua aréola uma juba leonina, áurea iluminada e milenar!! .... versos esses que da tal Beleza não se acercam, tal Beleza não se versa, dela não se aproxima! Beleza quando a face ilumina, e das trevas vespertinas faz nuvens dissolventes, espantadas pelos ventos do presente, vendavais nos lagos humananos dos olhos imortais!

Não sairia com a alma livre, onde já em si mesma nascia presa....não sairia jamais, presa pela insustentável Beleza, que todos aturdiam, saltando da sua rubra boca a volúpia pelos próprios desejos, o queriam todos em suas  perversas fortalezas...Sádicos masturbados, padres e exorcistas!

Quando os seus olhos não pararam, e não pararam mais, de perscrutar o imperscrutável, dentro de ti mesmo, do seu póprio olhar, o lago das profundezas.....e ali, sua alma para sempre presa, ilesa Beleza de teu corpo debulhado, os anos passaram-se  em sucinto esplendor, e quando vias, somente via um corpo branquejante e envelhecido,  e uma ruga em cima da outra tão franzida, tão velozmente as marcas do destino e das viciosas narcísicas vilezas esculpidas, quando ainda jovem tomado pela face obscura , se atira da ponte do Arno, mio caro babbino caro,  estando para sempre preso na memória do lago com seu sorriso...

No dia seguinte apenas um enterro, um velório preciso encoberto por uma sensação de alívio alheio, cheio de pessoas feias,

E de flores violetas chamadas Narciso.

FC



                                             NARCISO

                           Michelangelo Merisi da Caravaggio

2 comentários:

  1. A cada texto , uma boa surpresa, vc descreve tão bem, a alma presa pela vaidade... que te acorrenta numa espiral de ilusões infinita ,o efemero poder, a falta de controle , o vazio ,sente-se o desespero do inexoravel passar do tempo, da opinião alheia e a total incapacidade de ver o belo que se transforma...brilhante!👏🏼👏🏼👏🏼👍🏻👍🏻👍🏻😘

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  2. Estonteante como você escreve !!! Muita habilidade, as frases fluem com uma facilidade e ao mesmo tempo complexa que nos brinda com seu saber.
    Parabéns meu filho !!! Continue... Bjus iluminados 🌟✨✨💫🌟

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