Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

domingo, 31 de maio de 2015

OS MENINOS DO MINHOCÃO

Silêncios de carne, flores carnais
Debaixo da terra brotam, nascem
Com o tráfico do som, os belos
Rostos dos tantos perdidos
Meninos de Avignon,

Nascestes do som em concretude
Das pontes sem  contornos,
Horizontes sem retorno
Em corpos de infinitude repleta,

Taludes grossos em riscos
Viscerais, introduzem o
Meu cubismo em seus
Espaços radicais, meninos
Da Terra, que brotam do chão
Junto ao silêncio das minhocas,
Cavam seus buracos, com
Os dedos roídos e as incansáveis
Mãos...meus meninos de Avignon,

Rugem a ferocidade violenta
De uma flor invencível, talhada
Pelos machados de um mundo
Previsível, do cubismo nos olhos
Do abismo, sentem vivos o
Absurdo de ser, mais do que
Terra e som, o som de existir uma
Existência incontestável...

Os meninos de Avignon,
Em baixo da terra,
Em baixo do minhocão central,
Prostitutos do mundo milenar
Imaculados meninos do mundo
Retratos dos tantos substitutos
Vivos nos seus papéis falsos de
Ser....eles, os meus meninos, eles
Não podem morrer, pois
Vivem para viver!

Silêncios sem palavras quando
Contorno os corpos entregues
Plena sinceridade de ser
Numa guerra chamada de sociável
Formação de carreiras bandidas
E sociáveis, cargos de poder e
Corrupção de futuros em
Escravidão disfarçada de fundos
De pensão e garantias, mestrados
De sadismo e submissão

Figuras deformadas com seus
Diplomas figurantes, sem chão
Passam assim sem olhos e não
Enxergam os contornos remotos
Sinceros desse meninos que
Brotam do chão, verdadeiros
Terremotos de linhas desalinhando
Os corpos, os vivos e os mortos

Desfazem numa nota sem promessa
A miserável esperança de um
Mundo esmaecido por desejo e ilusão,
São os donos da verdade, explícitos
como as minhocas que abrem os
nossos buracos, e colocam a vida em
Circulação...esqueletos selvagens
De carne e de ossos, sentimentos
Sem emoção... São os anjos celestes
Meus meninos de Avignon

FC



                           LES DEMOISELLES D'AVIGNON

                                        Pablo Picasso

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