Os quadros falam sem dizer. Falam dentro de nós, gritam, choram, fazem nos ouvir vozes que muitas vezes não queremos escutar. Mas em si, são emoldurados pelo silêncio inerente aos objetos, às pinturas. Um quadro não fala. Mas se fizermos uma ligação das vozes presentes nos quadros mudos, que nós ouvimos cada vez que apreciamos um obra de arte de significativo porte, e as molduras que cercam a tela, poderíamos dizer que são elas, as barras, as selas, as contendoras das vozes dessas inúmeras pinturas que imploram para dizer o que já está sendo dito. As molduras do silêncio. A prisão em torno dos homens, que vivem numa cela invisível, e não falam, não cantam, não sorriem. Talvez se removêssemos as grades que nos cercam, ou as molduras das pinturas, o silêncio seria quebrado e nossos gritos seriam mais do que uma breve, passageira, e interior inaudível loucura silenciosa. Assim, resolvemos remover as molduras do silêncios dos tantos quadros que contam a nossa história, e deixar eles falarem através de um interlocutor, que como qualquer outro, poderia escutar, outros silêncios, outras vozes, outras alegrias, outras dores.

domingo, 31 de maio de 2015

PAI NOSSO

Pai nosso que estais na Terra, nos
confins de um mundo sem janela,
Perdoado sejas , pelo imenso Pai da
Terra, quem abre as portas e janelas,
para que todo nós possamos respirar...

Perdoado sejas, para as infalíveis eríneas
humanas chamas, não virem logo te buscar!

Oh, Pai nosso que estais no céu,
Que o pão ainda seja nosso,
E que dele, o nosso pai da Terra,
Sobre ao menos os ossos,
E algum sincero sentimento por algo
Que não seja simples e pura
Matéria

Pai nosso que estais na Terra, e nela
vive infernal, oprimido pela vida
e por todos que os cercam , pai nosso
bestial, renasça das próprias cinzas
e do mundo recries o assassínio filial

O Pai nosso que estais no céu do inferno
Dentro de nós, como pode ele perdoar-te
A ti mesmo, quando sem olhos enxergas
os seres que te cobrem, de humano
medroso afeto? Como pode ele visto
horror dos jardins de corvos mutilados,
lhe dizer palavra única de louvor, quando
ti mesmo até os filhos, como um Titus
Andronicus Imperador, as almas depenadas
E as peles escalpeladas lhes devorou?

Como pode ainda  caber mais morte em ti
mesmo, desprezível Ser despovoador de
homens e seus sonhos, um eterno das artes
zombador...

Ri das pequenas felicidades
dos pequenos, das pequenas
grandes conquistas tão humanas,
como se tudo fosse feno,
ser eterno gozador?

Como podes ser perdoado, se zombeteiro
Impotente, se gaba de ser o Deus pai
Ejaculador?

Da dor e da morte?
Da distância e do frio?
Da tirania insondável
Que lhe conduz os
Previsíveis músculos
De cada autômata
Expressão?

Desafeto sem mãos que tocam

Pai nosso que estais na Terra
Tristeza profunda que anda e pensa,
Que conjetura e planeja, arquiteta
E almeja os tantos bens que conquistou

Proliferação do humano canibal  horror
homem comedor de homens, pai nosso
que estais na Terra, devora teus filhos pelos
olhos, gélidas palavras sem nada  falar, mata
com o olhar as esposas com invisível tela
sobreposta sobre a pobre mulher vitimada,
tela de Penélope infernal, toda noite
desfeita, para na teia manter a pobre
prisioneira como se ela vivesse numa
esperança claustrofóbica, semi morta
Lúgubre e fatal, porém perfeita, um castelo
de cristal, uma masmorra celestial....

Palavras cruas dos teus lábios, beijos
mortos de Natal, falsas emoções nos
mundos tortos que criastes somente
para ter as fingidas sensações das
inúmeras existências inexistentes em ti,
as incontáveis expressivas confirmações
dos seres de sangue quente, meu pobre pai
ofídio procriador, do mal as sementes gera
pai nossos que estais na Terra, é das almas
o coletor, cobra impostos pelos sorrisos
despendidos, cobra cega que não sente dor
Naja do Paraíso expulsa, carregaste em teu
Seio a discórdia e a dor, em tua amara
Crença a terrível insensibilidade cruel
Da indiferença, quando pensas que jóias
compram respeito, e carros valem mais
do que a humana e sincera presença,
ser humano do bastidor, que nao pede
licença para passar, para sentar, para usar
tudo que ali estiver a sua vil disposição
egóica...não pede licença para matar!

Indo a vós o nosso reino de alegria
e humilde felicidade, indo a vós
o nosso reino de luta e Liberdade
pai nosso que estais na Terra,
transformador de anjos em feras
ser humano destruidor, por que
tua tumba violaste, se coroando
vivo, um morto imperador?

Porque teus filhos sacrificastes,
Comprando sentimentos com
Objetos sem valor? Coisas e coisas
Sem vida, sem possuir sequer a
Efêmera beleza de uma simples
E singela flor?

Por que?
Pai nosso que estais na Terra,
Dos filhos devorador,
Da mãe um boneco de plástico
Do pai, um eterno sofredor...
O que te fazes assim?,
O que te fazes sentir tanta dor,
Se o vazio sempre poderá ser
Preenchido com uma única
Gota de verdadeiro e puro
Amor?

Pai nosso que estais na Terra, santo
Rogador dos infelizes, e desterrados
Que comem nuvens, que comem sonhos....
Que comem pó, que comem os dedos,
E as unhas, e o medo da solidão
Do espelho, que reflete sempre
O existente por trás do aparente,
Sempre o reflexo de quem
De verdade não for

Ali se encontra a face
Daquele que não sente amor
Quando não se vê espelhado
Em si, o reflexo manchado
Diluído com o resto
Da cinza cor, vampirizado
O espelho que gela
Gela e degela e gela
Novamente
O nada refletor
Quando sozinhos em nossa Terra
Pensamentos de um mundo
Pessoal demais para ser
Dito em palavras apenas
Impessoais

Sabemos quem somos nesse
Grande palco de diversões....
Oh , juízes infelizes de nossa
Própria inquietude, de uma
Mente silenciosa que se cala
Mas não mente....a tal dor
Que deveras sente!
Pai nosso fingidor!!!

Pai nosso que estais na Terra,
Infelizmente, terás teus
Lábios humanos muito abaixo do chão
Humanos servis
Da matéria ,o que sobrará
Senão o pó da terra
E a solidão?...oh, solidão eterna,
De quem em pó
Transformou o Amor?

Amarga solidão de uma vida de poeiras
Como será o sabor de tal amargor
Quando acima de nós somente
Lápides de esquecimento?

Gramas e minhocas,
vermes sem pensamento

Como será da terra o sabor,
Pai nosso que estais na Terra?

Será possível lembrar de tudo
Que não vivemos, quando
Sepultados sem valor estivermos?

E se pudéssemos carregar para
Tumba um único pensamento,
Uma reflexão ou sentimento,
Até mesmo um arrependimento?

Qual serias o teu, pai nosso que estais
Na Terra, seria sobre algo humano
Que não tocaste, ou será que ainda lá
Nas catacumbas infernais,
Insistirias em pensar nas maravilhas
De metais? As tumbas humanas
infernais??

Máquina moderna da vil ambição
Será ela teu companheiro, enquanto
Os  honrados filhos da Terra fogem
Com Medo de tua inumana aflição?

Quem serás o novo mordomo negro
de tal treva em amarga putrefação
Gueto, onde suspeitos todos são,
De roubarem as tuas moedas, os
Teus ossos vivos embaixo do colchão?

Meu terrível pai da Terra humana
Da desumana solidão
Somente rezes para aquele que teu ouro
roubaste, no caminho se ilumine
E lhe devolva o coração!

Pai nosso eterno,
Da eterna redenção!

Amém

FC



                    SATURNO DEVORANDO A UN HIJO                                            

                                Francisco de Goya

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